É interessante como a Estomaterapia te disponibiliza oportunidades de mudar a vida de pessoas com trajetórias de vida completamente diferentes de um jeito inimaginável. Um exemplo disso é minha experiência no ambulatório de pessário.
Se não fosse pela Estomaterapia, muito provavelmente eu não iria entender o tamanho do impacto que o prolapso de órgãos pélvicos têm na vida de mulheres, em sua grande maioria idosas, e no meu caso, vindas dos quatro cantos do Ceará, representada aqui pela dona Maria (nome fictício), 70 anos, que mora em uma cidadezinha pequena, mãe de 6 filhos, todos de parto normal, agricultora e que nunca tinha conhecido a capital Fortaleza. Maria apresenta fatores de risco para ter prolapso de órgãos pélvicos1, mas acha que todos os seus problemas e dificuldades urinárias e ginecológicas se devem em decorrência da idade avançada e que, a partir disso, que todo sofrimento e dor deve ser suportado até o último dia de sua vida. Quando chega pela primeira vez no ambulatório de ginecologia, descobre que devido a outras doenças não poderia realizar cirurgia. E então, com essa notícia e a crença de que não se pode fazer mais nada sobre isso, Maria entra em nosso ambulatório de pessários.
Conversando com ela, descobri, que o impacto na qualidade de vida está na dificuldade de sentar em uma cadeira ou no banco da igreja, na vergonha e no medo constante de sangrar ou de perder urina involuntariamente, na privação de vestir determinada roupa, no medo de agachar-se para poder arrumar sua casa, de não conseguir colocar seus netos no colo, de não conseguir mais ter relações sexuais com o seu marido, ela acaba normalizando o sofrimento. Ou seja, observo que o pessário trás consigo uma qualidade de vida que está muito além da melhora da sensação de pressão ou “bola” na região vaginal ou no surgimento de infecções urinárias de repetição, sintomas mais clássicos reportados2.
É notória a felicidade imediata após uma boa adaptação do pessário vaginal, no instante em que essas mulheres se levantam da maca de atendimento e sentem que podem tossir, abaixar-se para pegar um objeto, quando elas sentem o alívio da bexiga completamente esvaziada após urinar, a expressão facial muda, às vezes lágrimas caem, é como se nós, Estomaterapeutas tivéssemos devolvido algo perdido há muitos e muitos anos.
Isso está para muito além das estatísticas, trabalhar olhando para essas mulheres, paga todo esforço e cansaço de um dia de ambulatório cheio. No fim do dia, o corpo está cansado, mas a alma está alimentada, pois fizemos a diferença na vida dessas senhoras, mães, trabalhadoras, que têm zelo pelo fazem em cuidar das suas casas e das suas famílias. Certamente a cansativa viagem de volta para sua casa valeu a pena, para assim, continuar vivendo melhor.
Referências Bibliográficas
1. Weintraub AY, Glinter H, Marcus-Braun N. Narrative review of the epidemiology, diagnosis and pathophysiology of pelvic organ prolapse. Int braz j urol [Internet]. 2020Jan;46(1):5–14. Available from: https://doi.org/10.1590/S1677-5538.IBJU.2018.0581
2. Nygaard I, Barber MD, Burgio KL, Kenton K, Meikle S, Schaffer J, et al. Pelvic Floor Disorders Network. Prevalence of symptomatic pelvic floor disorders in US women. JAMA. 2008;300:1311-6.

Arthur Monte Barreto
Graduado em Enfermagem em 2012 pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI, especialista em Gestão em Saúde, possui residência multiprofissional em oncologia pela Escola de Saúde Pública do Ceará. Especialista em Estomaterapia pela Universidade Estadual do Ceará em 2019. Atuou como enfermeiro assistencial em hospitais da rede municipal e estadual como Hospital Geral Dr. Cesar Calls e Hospital Frotinha da Parangaba. Atuou como Enfermeiro Militar do Hospital Geral do Exército de Fortaleza. Atualmente é Estomaterapeuta do Hospital Geral de Fortaleza atuando nos ambulatórios de feridas e pessários e na Unidade de Cuidados Prolongados e Enfermeiro do Serviço de Estomaterapia do Hospital do Coração de Messejana.