Traqueostomia em pediatria, muito a aprender e ensinar

TRAQUEOSTOMIA EM PEDIATRIA

A traqueostomia é um procedimento relativamente comum que é feito em qualquer faixa etária, principalmente na população pediátrica, e em pacientes com menos de um ano de idade. Os avanços das técnicas de suporte de vida e dos tratamentos de doenças crônicas permitiram que os pacientes sejam beneficiados pelo uso da cânula, dispositivo usado na traqueostomia, podendo ser  temporariamente ou permanentemente.

Existe uma extensa diversidade de recursos disponíveis, porém falta a padronização dos cuidados com a população pediátrica portadora de traqueostomia. Estima-se que entre 0,5 e 2% das crianças submetidas à intubação e ventilação mecânica necessitam de traqueostomia.

Entretanto, ainda existem relatos que evidenciam a dificuldade dos profissionais de saúde em tratar, acompanhar e ensinar a família sobre esta nova condição do paciente.

Indicações para a traqueostomia

  • Obstrução de Vias Aéreas Superiores (VAS);
  • Ventilação Mecânica prolongada;

Técnica de aspiração

Esta pode sofrer pequenas variações. Devendo ser de  maneira geral suave, mas eficiente. Deve ser dada atenção especial à:

  • Escolha do calibre da sonda, que não deve ultrapassar dois terços do calibre da cânula;
  • Profundidade da aspiração para evitar traumas à traqueia distal e
  • Ponta da cânula e o tempo de aspiração para evitar hipóxia, pneumotórax, reflexos vagais.

 Na alta hospitalar

É recomendável que seja fornecido no momento da alta hospitalar o cartão de identificação da criança traqueostomizada, contendo as informações:

  • Nome e idade da criança e data da traqueostomia;
  • Alerta crítico explicitando se a via aérea acima da traqueostomia se encontra pérvia ou não;
  • Número da cânula em uso e número da sonda de aspiração recomendada;
  • Profundidade recomendada para aspiração;
  • Identificação do hospital, serviço de referência e médico responsável.

Na prática de enfermagem e na troca de experiências com profissionais de outros serviços constatamos que a família deve estar preparada para o cuidado da traqueostomia no ambiente domiciliar. Se faz necessário que exista capacitação para os profissionais da saúde envolvidos no procedimento, pois é preciso que a educação com a família sobre o tratamento e cuidados seja feita precocemente, ainda no ambiente hospitalar.

Quanto aos cuidados de enfermagem na traqueostomia, ainda não existe uma literatura específica, então isto é feito, principalmente na prática dos especialistas que a realizam.

A partir deste ponto descrevo a minha prática clínica.

Banho – é importante evitar que a água caia em grande quantidade dentro do estoma, assim é recomendável usar o difusor com a mangueira de extensão abaixo do pescoço. Os bebês podem ser colocados na banheira e lavar o cabelo, limpar o rosto sem deixar cair água na região frontal, higienizar o rosto com o mínimo de água possível e o restante do corpo é limpo conforme o padronizado.

Aspiração – acomodar o bebê ou a criança na cama. A realização da aspiração da traqueostomia é feita conforme o descrito no consenso, quando necessário utilizar o bipap (dispositivo para o tratamento de distúrbios respiratórios).

Troca do fixador do dispositivo (cânula de traqueostomia) o ideal é ser  realizado por duas pessoas, uma para segurar o dispositivo e outra para realizar a higienização em torno do óstio (pequeno orifício que comunica um órgão oco com o meio externo).

Higienização – na prática clínica é feita com sabonete líquido levemente acidificado e água. Cuidadosamente se faz a secagem com gaze, ressaltando que ao redor do óstio, não é recomendado passar gaze cortada. Existem riscos de fios adentrarem o orifício. A gaze deve ser dobrada e havendo a disponibilidade da espuma, ela é colocada após o término da troca do fixador nas laterais do óstio.

Obs.:Existe estudo que explica o uso do produto, mas ainda não existe um consenso sobre o ideal a ser feito.

Em bebês existe um maior risco de lesão por dispositivo, por ser o pescoço pequeno. Então é preciso orientar o cuidador a colocar um travesseiro no ombro do bebê ou criança, deste modo abrindo espaço e evitando as lesões no local.

Quando não existir a necessidade de ventilação ou nebulização, o estoma deve ser protegido, para evitar a entrada de algum inseto, para tanto nesse momento é utilizada uma máscara cirúrgica no local.

Referências

  1. ItamotoI CH; LimaII BT; SatoII J; Fujita RR. Indicações e complicações de traqueostomia em crianças. Braz. j. otorhinolaryngol. (Impr.) vol.76 no.3 São Paulo May/June 2010.
  2. Avelino MAG, Maunsell R, Valera FFCP, Neto JFL, Cláudia Schweiger, Miurak CS, Chen VG,Manrique D,Oliveira R,Gavazzonio F,Picinin, IFM,Bittencourt P,Camargos P, Peixoto F,Brandão  MB, Sihu TM,Lima WTA.
  3. Primeiro Consenso Clínico e Recomendações Nacionais em CriançasTraqueostomizadas da Academia Brasileira de Otorrinolaringologia Pediátrica (ABOPe) e Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Braz J Otorhinolaryngol. 2017;83(5):498—506
Luciana de Aguiar Pacheco

Luciana de Aguiar Pacheco
Enfermeira Estomaterapeuta pela EEUSP, especialista em enfermagem oncológica, graduada pela UNASP, atua em Pediatria em Hospital Pediátrico do Estado de São Paulo.

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