O mês de julho marca a campanha Julho Verde, uma iniciativa brasileira de conscientização sobre o câncer de cabeça e pescoço, com foco na prevenção, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento adequado. A escolha do mês de julho coincide com o Dia Mundial de Prevenção e Combate ao câncer de cabeça e pescoço, celebrado em 27 de julho.
Esse tipo de câncer acomete regiões como cavidade oral, faringe, laringe e estruturas adjacentes, sendo os mais incidentes no Brasil. Dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima mais de 40 mil novos casos anuais, com fatores de risco fortemente relacionados ao tabagismo, etilismo e infecção pelo HPV.
Pessoas com câncer de cabeça e pescoço enfrentam transformações significativas em seu processo de viver, desde alterações na sua funcionalidade, quanto da auto imagem e qualidade de vida. Em muitos momentos torna-se necessário a confecção de uma traqueostomia e/ou gastrostomia, o que aumenta a demanda de cuidados e orientações relacionadas. Nesse contexto, o estomaterapeuta desempenha um papel essencial ao oportunizar um cuidado especializado, seguro e humanizado.
Nessa perspectiva, o estomaterapeuta atua desde o acompanhamento e preparo pré-operatório dessa pessoa, o que inclui demarcação de estomas, educação em saúde e preparo emocional. Segue sua atenção para os cuidados pós-operatórios e o seguimento ambulatorial contínuo, com foco na reabilitação, prevenção de complicações e promoção da autonomia do paciente.
Inúmeros são os desafios que enquanto especialistas na área enfrentamos nesse processo de cuidado. Esses desafios abrangem aspectos relacionados a pessoa, ao próprio cuidar e às barreiras de acesso e acessibilidade.
No que diz respeito a pessoa é notório a necessidade de uma abordagem humana e centrada na pessoa, englobando especialmente uma comunicação eficaz, haja vista algumas limitações que podem estar presentes desencadeadas pelas mutilações orofaciais ou pela presença de traqueostomia. Muitas vezes, essas pessoas enfrentam dificuldades relacionadas à adaptação de dispositivos para estomias e/ou fístulas, o que exige um processo de educação permanente e ações de promoção ao autocuidado mediadas pelo estomaterapeuta. Ainda em relação às especificidades da pessoa com câncer, cuidados relacionados à prevenção, diagnóstico precoce e tratamento são necessárias, a fim de evitar complicações dermatológicas periestomais e infecções secundárias.
Em relação aos desafios relacionados aos aspectos extrínsicos a pessoa com câncer de cabeça e pescoço, é primordial uma articulação entre as equipes de saúde e dentro da própria rede de cuidado, na prerrogativa de favorecer o processo reabilitatório dessa pessoa, seja ela funcional e/ou psicossocial. Além disso, essas pessoas precisam ter acesso facilitado a insumos e serviços especializados, para que possam reestruturar sua nova forma de autocuidado e de viver. Ainda, é imprescindível o fortalecimento de políticas públicas que assegurem o acesso universal ao cuidado especializado.
Valorizar o Julho Verde é também valorizar a Estomaterapia e o cuidado de enfermagem centrado na pessoa. Esse momento deve ser compreendido não apenas como um mês de alerta para prevenção, mas como um momento de mobilização da própria Enfermagem no enfrentamento de situações complexas de cuidado, como o câncer de cabeça e pescoço.
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Prof.ª Dr.ª Juliana Balbinot Reis Girondi
Doutora em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem e do Programa de Pós-graduação Gestão do Cuidado em Enfermagem- Modalidade Profissional da Universidade Federal de Santa Catarina. Estomaterapeuta pelo Hospital Albert Einstein, TiSOBEST. Presidente da Seção SOBEST (Associação Brasileira de Estomaterapia) Santa Catarina. Faimer Fellow 2015. Editora Associada da Revista Estima. Vice líder do Laboratório de Pesquisas e Tecnologias em Enfermagem, Cuidado em Saúde a Pessoas Idosas (GESPI/UFSC). Membro do Laboratório de Pesquisa e Tecnologias para o Cuidado de Saúde no Ambiente Médico-Cirúrgico (LAPETAC/UFSC) e do Grupo de Apoio à Pessoa Ostomizada (GAO/UFSC). Florianópolis, SC, Brasil.