O prolapso de órgãos pélvicos (POP) é definido como a descida ou deslocamento de um órgão, mais comumente o útero, ou aos diferentes compartimentos vaginais que dão sustentação a outros órgãos como bexiga e reto por exemplo, sendo assim uma alteração anatômica da estrutura pélvica que se projete para o canal vaginal[1]. Daí a queixa mais comum e que geralmente da início a caminhada até o nosso ambulatório, a sensação de uma “bola” ou pressão na região vaginal podendo estar associada a uma incontinência urinária ou anal. O pessário, por sua vez, se apresenta como um dispositivo intravaginal utilizado como forma de tratamento conservador para o POP, visando fornecer suporte aos órgãos pélvicos e aliviar os sintomas relacionados ao prolapso[2].
A partir daí, o Enfermeiro Estomaterapeuta inicia sua jornada de melhoria da qualidade de vida dos seus pacientes. A consulta de Estomaterapia deve ter como premissa básica a melhora das queixas urogenitais, e da melhor adaptação da paciente, ou seja, não adianta apenas mensurar e escolher o tamanho exato do pessário, se a paciente relatar desconforto, escolha outros tipos e tamanhos, procure entender melhor suas queixas, senão a chance de abandono do tratamento se torna alta.
Na consulta inicial, o Estomaterapeuta deve começar apresentando o pessário, pois a maioria das pacientes não conhece o dispositivo. É recomendável ter modelos e tamanhos variados para mostrar, explicar o que são e permitir que a paciente os manipule para esclarecer dúvidas. O consentimento da paciente é fundamental, e ela deve se sentir à vontade para decidir se deseja ou não seguir com o tratamento.
Além disso, uma anamnese detalhada e um exame físico são essenciais. A anamnese deve abranger as condições sociais da paciente, como sua rede de apoio e moradia, enquanto o exame físico deve identificar possíveis limitações físicas, como problemas osteomusculares, neuromusculares ou visuais. O objetivo é sempre preservar a máxima autonomia da paciente no autocuidado. Essas informações são cruciais para determinar a frequência dos retornos ao ambulatório, pois mulheres que não conseguem remover e limpar o dispositivo sozinhas precisarão de acompanhamento mais frequente [3].
Quanto a avaliação uroginecológica, dados como número de gestações e tipos de parto, histórico de neoplasias, cirurgias anteriores são importantes. Alguns exames podem ser úteis para descartar condições de contraindicação temporária ou permanente, como sumário de urina e urocultura, exame citopatológico do colo do útero e urodiâmica. Realize uma inspeção do canal vaginal para identificar sangramentos e outras alterações. Determine o tipo e o estágio do prolapso, o instrumento frequentemente utilizado é o sistema de quantificação POP-Q (Pelvic Organ Prolapse Quantification). O profissional considera o tipo de prolapso (anterior, posterior ou apical), sua estágio variando de 0 (sem prolapso) a IV (eversão e exposição do canal vaginal > 2cm), a presença de sintomas e o impacto na qualidade de vida da paciente[1,4].
Existem muitos tipos de pessários, projetados para tratar os diversos tipos de POP, os tamanhos podem variar de 1 a 10 como os pessários tipo anéis, para ajudar na escolha ideal, realize uma medição inserindo o dedo médio atrás do colo do útero no fórnice posterior e colocando o dedo indicador contra a incisura púbica. A distância entre os dois dedos é usada como ponto de partida para o dimensionamento do pessário. Modelos de pessário como os de cubo, gellhorn e donut, geralmente são utilizados em prolapsos mais graves (Estágio III e IV), quando as tentativas com o pessário de anel não forem exitosas[5].
Enfim, após a escolha do pessário e inserção do dispositivo, é necessário garantir o encaixe e o conforto, a paciente é instruída a realizar manobras como tossir ou fazer a manobra de Valsalva, que ajudam a confirmar se o pessário se mantém na posição correta e não é expulso. Recomenda-se também que a paciente caminhe, agache e urine ainda durante o período da consulta para assegurar que não haja desconforto e que o dispositivo não afete as atividades diárias[3,5].
O acompanhamento e a manutenção são etapas fundamentais do processo. O Estomaterapeuta deve reavaliar a paciente periodicamente para verificar a eficácia do tratamento e a ausência de complicações, como falha na colocação do pessário, dor local, expulsão do dispositivo ao realizar atividades diárias, desconforto, corrimento vaginal aumentado, infecção e úlceras, que podem ser tratáveis ambulatorialmente. Além disso, a paciente deve receber orientações de maneira contínua sobre a higienização do pessário e a forma correta de inseri-lo e removê-lo, garantindo o uso seguro e o sucesso do tratamento[6].
Referências bibliográficas
1. Haylen BT, Maher CF, Barber MD, Camargo SFM, Dandolu V, Digesu A, Goldman HB, Huser M, Milani A, Moran P, Schaer GN, Withagen MI. An International Urogynecological Association (IUGA) / International Continence Society (ICS) Joint Report on the Terminology for Female Pelvic Organ Prolapse (POP). Int Urogynecol J,2016, 27(2):165-194; Erratum,2016, 27(4): 655-684; Neurourol Urodyn,2016,35(2):137-168.
2. Bo K, Frawley H, Haylen BT, Abramov Y, Almeida F, Berghmans B, Borotolini MT, Dumoulin C, Gomes M, McClurg D, Meijink J, Shelly E, Trabuco E, Walker C, Wells A. International Urogynecological Association (IUGA) / International Continence Society (ICS) Joint Report on the Terminology for the Conservative and Non-pharamacological Management of Female Pelvic Floor Dysfunction. Int Urogynecol J,2017,28 (2): 191-213; Neurourol Urodyn,2017,36 (2): 221-244;
3. Oliveira PDA, Somense CB, Barros NA, Greghi EFM, Alexandre NMC, Dantas SRPE, Silveira NI. Pessários vaginais na incontinência urinária: revisão integrativa. ESTIMA, Braz. J. Enterostomal Ther., 16: e0419. https://doi.org/10.30886/estima.v16.661_PT
4. Kuo CH, Mikes BA. Pelvic Organ Prolapse. [Updated 2025 Jun 26]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK563229/
5. Bordman R, Telner D. Practice tips. Pessary insertion: choosing appropriate patients. Can Fam Physician. 2007 Mar;53(3):424-5. PMID: 17872675; PMCID: PMC1949074.
6. Cavalcanti CV, Nunes JMVC, Fortes AAL, Holanda MMRNM, Bezerra C de S, Albuquerque LS de O, Santos MRAA. Uso de pessários como alternativa ao tratamento cirúrgico de prolapsos genitais. Braz. J. Hea. Rev. [Internet]. 2024 Apr. 24 [cited 2025 Aug. 14];7(2):e69169. Available from: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BJHR/article/view/69169

Arthur Monte Barreto
Graduado em Enfermagem em 2012 pela Universidade Estadual do Piauí – UESPI, especialista em Gestão em Saúde, possui residência multiprofissional em oncologia pela Escola de Saúde Pública do Ceará. Especialista em Estomaterapia pela Universidade Estadual do Ceará em 2019. Atuou como enfermeiro assistencial em hospitais da rede municipal e estadual como Hospital Geral Dr. Cesar Calls e Hospital Frotinha da Parangaba. Atuou como Enfermeiro Militar do Hospital Geral do Exército de Fortaleza. Atualmente é Estomaterapeuta do Hospital Geral de Fortaleza atuando nos ambulatórios de feridas e pessários e na Unidade de Cuidados Prolongados e Enfermeiro do Serviço de Estomaterapia do Hospital do Coração de Messejana.