A endometriose é uma doença inflamatória crônica que acomete cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e é uma das principais causas de dor pélvica crônica no mundo. Muito além das cólicas menstruais intensas, trata-se de uma condição sistêmica, dependente de estrogênio, que envolve inflamação persistente, alterações imunológicas e mecanismos complexos de sensibilização da dor. A dor na endometriose deve ser compreendida de maneira multifatorial, incluindo não apenas a presença de lesões, mas também alterações neuromusculares e centrais que mantêm o quadro doloroso.
Dentre os mecanismos que perpetuam a dor na endometriose, a disfunção do assoalho pélvico desempenha papel relevante. A dor contínua pode gerar uma resposta adaptativa dos músculos do assoalho pélvico, frequentemente manifestada por hipertonia, encurtamento e formação de pontos gatilho miofasciais. Pesquisas recentes demonstram que, em mulheres com endometriose, esse padrão de disfunção muscular está associado a sintomas como urgência urinária, dificuldade de relaxamento da musculatura pélvica e dor durante o sexo ou a micção, o que corrobora a necessidade de olhar para além da lesão anatômica isolada.
A ciência tem investigado formas de intervenção conservadoras desses quadros. Um estudo randomizado recente mostrou que a inclusão de treino supervisionado do assoalho pélvico em programas de exercício reduzia a dor pélvica em mulheres com endometriose, apontando para benefícios funcionais e de qualidade de vida (Gabrielsen et al., 2025). Isso reforça que intervenções musculares específicas podem ser eficazes como parte de um plano terapêutico integral, ainda que os efeitos precisem ser explorados em estudos maiores.
Nesse cenário, o enfermeiro estomaterapeuta possui um papel singular e fundamentado em evidências para atuar diretamente na reabilitação do assoalho pélvico. Com avaliação criteriosa, esse profissional pode identificar alterações de tônus, coordenação e resposta ao esforço, estabelecer planos terapêuticos conservadores (incluindo fotobiomodulação, termoterapia, técnicas de relaxamento, biofeedback, eletroestimulação quando indicada) e promover educação em saúde centrada na modulação da dor e no autocuidado. Ao conduzir a reabilitação pélvica em sua competência técnica e no escopo de sua prática profissional, o estomaterapeuta amplia o acesso a cuidados baseados em evidência, fortalecendo o cuidado integral à mulher com endometriose, sem depender exclusivamente de encaminhamento para outra profissão.
Reconhecer o impacto da endometriose sobre o assoalho pélvico é reconhecer que a doença exige uma resposta clínica que combine ciência e cuidado centrado na pessoa. A atuação do enfermeiro estomaterapeuta, alicerçada em conhecimento científico e em prática clínica qualificada, contribui para centralizar as necessidades funcionais da paciente, reduzir o ciclo de contração reflexa dolorosa e promover a melhoria da qualidade de vida. Essa abordagem amplia a visão tradicional de tratamento e evidencia o papel estratégico da estomaterapia na saúde pélvica feminina.
Referências:
Gabrielsen R, Tellum T, Bø K, Ellström Engh M, Frawley H, Nedregård Tveito S, Tennfjord MK. Supervised exercise and pelvic floor muscle training eases current pelvic and genital pain but not worst pelvic and genital pain in women with endometriosis: a randomised trial. Journal of Physiotherapy. 2025;71(4):246–253. doi:10.1016/j.jphys.2025.09.012.
da Silva JP, de Almeida BM, Ferreira RS, de Paiva Oliveira Lima CR, Barbosa LMÁ, Ferreira CWS. Sensory and muscular functions of the pelvic floor in women with endometriosis – cross-sectional study. Arch Gynecol Obstet. 2023 Jul;308(1):163-170. doi: 10.1007/s00404-023-07037-1. Epub 2023 Apr 12. PMID: 37042996.
Del Forno S, Cocchi L, Arena A, Pellizzone V, Lenzi J, Raffone A, Borghese G, Paradisi R, Youssef A, Casadio P, Raimondo D, Seracchioli R. Effects of pelvic floor muscle physiotherapy on urinary, bowel, and sexual functions in women with deep infiltrating endometriosis: a randomized controlled trial. Medicina (Kaunas). 2023 Dec 29;60(1):67. doi: 10.3390/medicina60010067.

Bianca Caneloi de Oliveira
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da USP
Especialista em Enfermagem em Reabilitação pelo HCFMUSP
Estomaterapeuta pela Faculdade Cleber Leite
Membro do Grupo de Pesquisa ‘Enfermagem e Assistência à Saúde de Mulheres: Modelos, Agentes e Práticas” do ENP-EEUSP/CNPq
Cerca de 13 anos de experiência em Reabilitação Pélvica
Docente em pós-graduação de estomaterapia em várias faculdades pelo Brasil
