Incontinência urinária como problema de saúde pública: evidência, impacto e responsabilidade coletiva

Incontinência urinária como problema de saúde pública

Refletindo sobre o processo histórico da incontinência urinária, a primeira descrição foi feita por Hipócrates, há 460 anos antes de Cristo. Desde então, o processo de perda urinária vem sendo naturalizado como uma condição da mulher, frequentemente associado ao envelhecimento, à gestação e ao parto. Fica o questionamento: se a incontinência urinária já era descrita há aproximadamente 2.500 anos, por que, em pleno século XXI, ainda permanece invisibilizada e negligenciada nos serviços de saúde?

A ICS recomenda o tratamento conservador, incluindo o treinamento da musculatura do assoalho pélvico (TMAP) e as modificações comportamentais, como primeira linha de cuidado, sendo esse um direito da pessoa que perde urina de receber esse tratamento antes de tratamentos farmacológicos ou cirúrgicos. Embora o tratamento conservador apresente taxas de eficácia de até 70%, ele ainda não está incorporado de forma sistemática na rede pública. A ausência de fluxos estruturados, de capacitação profissional ampliada e de políticas públicas específicas contribui para a manutenção da invisibilidade do problema.

Com isso, as pessoas que vivem com perda urinária apresentam consequências que ultrapassam o sintoma inicial, com maior risco de depressão e ansiedade, isolamento social e prejuízo significativo na qualidade de vida. Atividades cotidianas simples, como caminhar, participar de atividades religiosas e realizar tarefas domésticas, passam a ser evitadas devido ao medo de perda urinária. Entre pessoas idosas, a urgência miccional está associada ao aumento do risco de quedas, além de maior incidência de infecções do trato urinário.

Além dos impactos físicos e psicossociais, a incontinência urinária também acarreta repercussões econômicas significativas. As complicações associadas à condição podem levar à hospitalização e ao aumento da demanda por serviços de saúde, além de gastos contínuos com insumos de contenção. Há ainda consequências relacionadas ao afastamento laboral e à institucionalização da pessoa idosa, o que amplia o impacto social e financeiro dessa condição.

Nesse cenário, a enfermagem brasileira assume um papel estratégico. Como maior força de trabalho em saúde, presente em todos os níveis de atenção, possui potencial singular para ampliar o acesso ao tratamento conservador. O respaldo legal está estabelecido pelo Parecer 04/2016 do Conselho Federal de Enfermagem, que reconhece a atuação da enfermagem nas disfunções do assoalho pélvico. Contudo, para que essa atuação se consolide de forma mais ampla, é necessário investir em capacitação técnica e em educação permanente, especialmente na Atenção Primária à Saúde.

Fortalecer o tratamento conservador na rede pública significa reduzir as filas para a atenção especializada, evitar medicalização e cirurgias desnecessárias e otimizar os recursos do Sistema Único de Saúde. Isso demanda compromisso de gestores municipais, estaduais e federais, com a inclusão do tema nas políticas de saúde da mulher e a estruturação de protocolos assistenciais viáveis.

Reconhecer a incontinência urinária como um problema de saúde pública é o primeiro passo. É necessário romper o tabu que ainda envolve o tema, ampliar a informação e fortalecer o debate sobre o tratamento conservador. Neste Dia Internacional da Incontinência Urinária, o compromisso deve ser coletivo: envolve a sociedade, na superação do silêncio; os profissionais de saúde, na qualificação do cuidado; e, sobretudo, os gestores e as instituições, na organização da rede de atenção para garantir acesso ao tratamento de primeira linha. 

Referências

DUNCAN, I.; STOCKING, A.; FITZNER, K.; AHMED, T.; HUYNH, N. The prevalence of incontinence and its association with urinary tract infections, dermatitis, slips and falls, and behavioral disturbances among older adults in Medicare fee-for-service. Journal of Wound, Ostomy and Continence Nursing, v. 51, n. 2, p. 138-145, 2024. DOI: 10.1097/WON.0000000000001054.

CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Parecer de Câmara Técnica nº 04/2016/CTAS/COFEN. Manifestação sobre procedimentos da área de enfermagem. 2016.

FERNANDES, A. C. N. et al. Pelvic floor muscle training with feedback or biofeedback for urinary incontinence in women. Cochrane Database of Systematic Reviews, v. 3, n. 3, p. CD009252, 2025. DOI: 10.1002/14651858.CD009252.pub2.

Edimaria de Carvalho de Sousa

Enfermeira, especialista em Saúde da Mulher pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), mestranda pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP), com linha de pesquisa e atuação clínica na área das disfunções do assoalho pélvico.

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