O Dia da Terra e a Bioética

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Parece que temos muito pouco para comemorar neste 22 de abril: o dia da Terra. Nunca tomamos conhecimento de tanto desrespeito ao nosso planeta, tantos desmatamentos, tantos incêndios nas florestas, tanta poluição, tanto efeito estufa… tanta “boiada passando”.

O dia da Terra foi criado para aumentar a conscientização sobre as questões de biodiversidade, contaminação e qualquer outro assunto que diga respeito às interferências sobre os ecossistemas. Ao falarmos sobre ecossistemas, lembramos que ecologia (do grego oikos, casa e logos estudo) é a ciência que estuda as relações dos seres vivos entre si e com o meio ambiente onde vivem. A ecologia faz parte da biologia, que é a ciência que se propõe a estudar a Vida em todos os seus aspectos, desde anatômicos, fisiológicos, genéticos e evolutivos, entre tantos outros. A palavra Vida foi escrita com letra maiúscula, para chamar a atenção para a abrangência que esse conceito está alcaçando nos nossos dias.

Desde os tempos mitológicos, a Terra (Gaia) era a potência geradora primordial, de onde todas as demais criaturas vieram. Por essa razão foi chamada também de Mãe-Terra, pela intuição do envolvimento afetivo que existia entre ela e seus filhos. Muitos povos originários, incluindo os indígenas andinos da América Central, tem como divindade máxima a Pachamama, que representa esse princípio gerador de caráter maternal, relacionado à afetividade e fertilidade. Apenas recentemente nossa ciência, racionalista e antropocêntrica, tem resgatado esse aspecto sublime da nossa relação com a Mãe-Terra. Ela é muito mais que apenas o planeta que vivemos, ela é um sistema de relações complexas entre seus componentes, que envolve não só questões físicas, mas também aspectos transcendentes que se ligam em uma grande rede. Segundo Leonardo Boff¹:

“Ecologia é a relação, inter-ação e dialogação de todas as coisas existentes (viventes ou não) entre si e com tudo o que existe, real ou potencial. Ecologia não tem a ver apenas com a natureza (ecologia natural), mas principalmente com sociedade e cultura (ecologia humana, social, etc). Portanto ecologia é um saber das relações, interconexões, interdependências e intercâmbios de tudo com tudo, em todos os pontos e em todos os momentos.”

A partir dessa perspectiva integradora podemos entender a Terra como um grande ser vivo que nos gera em seu ventre, nos recebe, nos alimenta e permite que vivamos felizes na sua casa. Assim resgatamos a dimensão amorosa dessa relação: passamos não só a cuidar dela, mas a amá-la e respeitá-la naquilo qua ela tem de mais sagrado.


¹ Jesus RM. Ecologia: desafios à ética e ao cristianismo segundo Leonardo Boff. Pensar-Revista Eletrônica da FAJE (1):16-30, 2010.

Assim, nossa relação com a Terra deixa de ser apenas de exploração e passa a ter um fundamento ético inegociável, que ilumina nossas atitudes e ações e nos torna defensores da sua preservação e desenvolvimento.

A Bioética é o estudo abrangente e interdisciplinar sobre as questões éticas (reflexões, decisões e ações) das relações entre as ciências e a Vida. Nas suas origens na década de 1970, dedicava-se apenas às discussões biomédicas relacionadas à pesquisa e aplicação das tecnologias na área da saúde. Mas a partir da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos² , adota pela Unesco em 2005, o escopo da Bioética passou a incluir, além das questões meramente técnicas, também as dimensões sociais e ambientais das ciências da vida.

Citando a própria Declaração, no seu artigo 17:

“Devida atenção deve ser dada à inter-relação de seres humanos com outras formas de vida, à importância do acesso e utilização adequada de recursos biológicos e genéticos, ao respeito pelo conhecimento tradicional e ao papel dos seres humanos na proteção do meio ambiente, da biosfera e da biodiversidade.”

Fica cada vez mais evidente as consequências dessas relações entre os seres humanos e a natureza. Como exemplo mais atual podemos citar as declarações da OMS³ , que apontam que em torno de 70% dos últimos surtos epidêmicos virais, incluindo o HIV, o Ebola, o SARS e o próprio Novo Coronavírus, entre outros, “saltaram” dos animais para os seres humanos após desmatamentos maciços, o que “escancara” a importância das questões ambientais para a saúde humana mundial.

A partir dessa reflexão fica clara a necessidade do engamento de cada um de nós nessa proposta trazida pela Bioética que, muito mais que uma disciplina-ponte entre as ciências humanas e biológicas, torna-se um amplo movimento pela revalorização da Vida em todos os seus aspectos relacionais. Os tempos de pandemia nos mostram que não temos muita escolha: ou defendemos e protegemos nossa Mãe- Terra ou pereceremos como espécie. Isso faz da Bioética a ciência da sobrevivência humana. Ou assumimos com humildade nosso papel na proteção e promoção da Vida ou as próximas gerações correm o risco de definharem até o desaparecimento. Vale lembrar que a palavra humildade vem de humus, do latim terra fértil, ou seja, não uma terra qualquer, mas terra com capacidade geradora, fecunda e produtiva: e a palavra humano tem também essa mesma origem…

Como diria Carl Segan , em suas reflexões sobre “O pálido ponto azul”: a Terra, na fotografia que a Voyager I tirou da terra em fevereiro de 1990, ao passar pelo planeta Saturno (a seis bilhões de quilômetros de distância), em sua viagem por todo sistema solar e mais além:

“Nossas posturas, nossa presunção imaginada, a ilusão de que temos alguma posição privilegiada no Universo, são desafiadas por este ponto de luz pálida. Nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não há indício de que a ajuda virá de outro lugar para nos salvar de nós mesmos”.

Ou seja, nós mesmos devemos encontrar o significado para nossa insignificância.


² Disponível em Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos. Acessado em 21.04.2021.
³ Disponível em Diretora de Meio Ambiente da OMS: “70% dos últimos surtos epidêmicos começaram com o desmatamento”. Acessado em: 13.02.2021.

Venâncio Pereira Dantas Filho

Venâncio Pereira Dantas Filho
Médico neurocirurgião do Hospital de Clínicas da Unicamp
Membro do Centro Interdisciplinar de Bioética da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp