A enfermagem é o pilar essencial do sistema de saúde. É uma profissão construída sobre a dualidade do cuidar: uma missão nobre que exige dedicação extrema, mas que, paradoxalmente, pode desgastar o próprio cuidador.
Na linha de frente do atendimento, os profissionais de enfermagem enfrentam situações estressantes. Segundo o boletim do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN,2019), apenas 29% dos profissionais de enfermagem se sentem seguros em seus ambientes de trabalho. A pressão e a sobrecarga, com jornada exaustiva, voltaram à discussão nacional após casos recentes de suicídio de profissionais. Estudo transversal, realizado em Prontos Socorros e nas Unidades de Terapia Intensiva Adulto e Coronariana de hospitais públicos do interior de Minas Gerais, com a participação de 302 profissionais de enfermagem, apontou a prevalência de 20,5% de transtornos mentais comuns. O estudo demonstra que as condições de trabalho nos ambientes de urgência e emergência, associadas ao cargo de enfermeiro, favorecem o desenvolvimento de transtornos mentais comuns. Denota-se a necessidade de implementar estratégias para a identificação precoce de transtornos mentais comuns e de promover a saúde mental dos profissionais, visando à melhoria dos aspectos psicossociais nos ambientes de trabalho (MOURA, 2022). A literatura científica é contundente ao evidenciar as consequências. A síndrome de Burnout, um estágio de exaustão física, emocional e mental, relacionado ao trabalho, apresenta prevalência alarmante na categoria. Um estudo publicado na Revista da Escola de Enfermagem da USP. (2021) apontou a prevalência de Burnout entre enfermeiros de 2,5% no hospital público e 9,1% no privado. Entre os técnicos de enfermagem, a prevalência foi de 9,5% e 8,5%, respectivamente. A importância do controle do ambiente, da autonomia e do suporte foi considerada um ponto crítico, o que ratifica a necessidade de avaliar fatores das instituições capazes de melhorar as condições laborais da equipe de enfermagem. (MOLLER, 2021). Outro estudo de abordagem qualitativa mostra que a saúde mental dos enfermeiros que trabalham em hospitais está em situação preocupante, com a síndrome de Burnout sendo uma das manifestações mais críticas dessa realidade. Os dados indicam que elementos como longas jornadas de trabalho, múltiplos empregos, falta de reconhecimento por parte das instituições e falhas organizacionais formam um conjunto de fatores que não apenas aumentam o risco de problemas psicológicos, mas também prejudicam a qualidade do atendimento prestado. (FREITAS 2025). O Burnout não é apenas um mal-estar individual; ele se correlaciona com erros assistenciais, diminuição da qualidade do cuidado, absenteísmo e alta rotatividade, o que gera mais prejuízos ao sistema já fragilizado.
No contexto da saúde pública brasileira, marcada por subfinanciamento, superlotação e alta complexidade, esse paradoxo se intensifica, tornando premente a discussão sobre a saúde mental desses profissionais. Além do Burnout, citado anteriormente, transtornos de ansiedade e depressão são significativamente mais prevalentes entre os enfermeiros do que na população geral. A pandemia de COVID-19 atuou como agravante catastrófico, expondo esses profissionais a traumas e ao medo de contágio próprio e familiar.
A Campanha Janeiro Branco surge, portanto, não apenas como um lembrete opcional, mas como um imperativo ético e estratégico para a sustentabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS). A exposição diária dos enfermeiros a sofrimento humano, morte, pressão por produtividade, condições de trabalho precárias, cargas horárias exaustivas e, por que não dizer, baixos salários e, não raro, à violência institucional e física, configura um cenário de estressores ocupacionais. O problema vai além da natureza desgastante do trabalho, uma vez que está ancorado em uma cultura profissional e institucional que, historicamente, glorifica o sacrifício e a resiliência infinita, enquanto negligencia a vulnerabilidade. A enfermagem, que por muitas vezes é suprimida a ignorar suas próprias necessidades, internalizando o sofrimento como uma falha pessoal, e não como um efeito esperado de condições laborais adversas. Na saúde pública, essa dinâmica é potencializada pela escassez de recursos humanos, o que leva a sobrecargas de plantão e à impossibilidade de pausas regenerativas.
Diante do exposto, o JANEIRO BRANCO deve ser entendido como um ponto de partida para uma mudança estrutural. Ações pontuais, embora bem-intencionadas, são insuficientes se não forem acompanhadas de intervenções organizacionais, sistematizadas e efetivas, com envolvimento político e social. É necessário fomentar uma cultura de apoio mútuo e vigilância solidária, ou seja, autocuidado coletivo para que o Janeiro Branco sirva para lembrar que buscar ajuda psicológica, estabelecer limites saudáveis e praticar o autocuidado não são atos de fraqueza, mas de competência profissional e sobrevivência. Além de ser um determinante direto da qualidade do cuidado prestado à população, em qualquer nível, seja na atenção básica, no cuidado especializado ou no de alta complexidade. Cuidar de si próprio e cuidar de quem cuida são atos de inteligência e de justiça social. O Janeiro Branco clareia essa necessidade urgente, convocando gestores, educadores e os próprios profissionais a transformarem o silêncio e o sofrimento em diálogo, apoio e mudança concreta.
Referências bibliográficas
Moura RC, Chavaglia SR, Coimbra MA, Araújo AP, Scárdua AS, Ferreira LA, et al. Transtornos mentais comuns em profissionais de enfermagem de serviços de emergência. Acta Paul Enferm.2022.
Freitas AS , Garcia AKB, Barroso EG, Araújo AFL de. A saúde mental do profissional de enfermagem em ambiente hospitalar: desafios, consequências e estrátégias de cuidado. Rev. Foco. 2025.
Möller G, Oliveira JLC, Dal Pai D, Azzolin K, Magalhães AMM. Nursing practice environment in intensive care unit and professional burnout. Rev EscEnferm USP. 2021. https://www.cofen.gov.br/saude-mental-dos-profissionais-de-enfermagem-e-destaque-de-boletim/

Iraktania Vitorino Diniz
Doutora em enfermagem, Estomaterapeuta TiSobest – Presidente Seção PB. Coordenadora da Pós graduação – UNIESP