Mudar protocolos, rever rotinas, incorporar novas tecnologias e até questionar condutas consolidadas exige coragem, mas é através deste movimento que a estomaterapia se fortalece como especialidade de enfermagem, norteada pela ciência. Cada decisão do estomaterapeuta precisa equilibrar experiência clínica, contexto institucional, valores dos pacientes e, sobretudo, o que há de mais atual em evidências de qualidade.
Segundo o Joanna Briggs Institute (JBI), “o cuidado em saúde baseado em evidências é a tomada de decisão que considera as melhores evidências disponíveis, a expertise clínica, os valores e circunstâncias dos pacientes, bem como o contexto em que o cuidado ocorre”. Esse conceito deve ser um eixo estruturante da atuação do enfermeiro especialista, seja na prevenção, tratamento ou reabilitação de pessoas com feridas, estomias e incontinências.
Evidências recentes reforçam o papel dos enfermeiros estomaterapeutas, sendo eles capazes de gerar valor para os sistemas de saúde ao melhorar desfechos clínicos, reduzir custos, aumentar a eficiência dos serviços, além de liderar iniciativas de ensino e pesquisa que podem apoiar o avanço de práticas seguras nos serviços de saúde.
Para isso, é fundamental que a tomada de decisão seja norteada por evidências científicas, não apenas para embasamento de intervenções diretas ao paciente, mas também para a definição de políticas públicas relacionadas à estomaterapia, a padronização de processos assistenciais, a aquisição de materiais e a incorporação de instrumentos e tecnologias com benefício clínico demonstrado.
Assumir a responsabilidade de consumir, interpretar criticamente e aplicar evidências é parte essencial do papel do estomaterapeuta na sociedade atual. Para isso, torna-se indispensável investir em letramento científico, garantindo que o profissional saiba identificar fontes confiáveis, avaliar o nível de evidência dos estudos e analisar a viabilidade e aplicabilidade das práticas no contexto no qual atua.
Contudo, a implementação das evidências não é isenta de desafios. Entre as principais barreiras estão a escassez de estudos de alta qualidade em algumas áreas da estomaterapia, a cultura institucional resistente à mudança, a limitação de recursos (humanos e financeiros) e o apoio insuficiente da liderança. Mapear essas barreiras é passo fundamental para transformá-las em oportunidades de melhoria e ampliar a adoção de práticas baseadas em evidências nos serviços de saúde.
Por outro lado, a literatura aponta para alguns facilitadores para translação do conhecimento e que inclui apoio da liderança organizacional, cultura aberta à inovação, educação permanente e estratégias estruturadas de implementação, com monitoramento sistemático de resultados, como os modelos norteados pela ciência da implementação.
Por fim, é necessário reconhecer que as evidências em estomaterapia ainda estão em construção. Cabe ao especialista não apenas consumir criticamente o que já está disponível, mas também produzir novos conhecimentos, transformando a prática clínica em campo fértil de investigação. Estudos bem delineados, com rigor metodológico e enraizados nos desafios
da prática diária, são essenciais para responder a questões ainda pouco exploradas e indicar, com base na ciência, quais são os melhores caminhos a seguir. Esse é o desafio e o compromisso da estomaterapia contemporânea: usar a ciência de forma crítica, contextualizada e sustentável, sem perder de vista a singularidade de cada pessoa, buscando alcançar melhores desfechos e gerar valor real em saúde.
Referências bibliográficas
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Aline Ramalho
Mestre em ciências da saúde pela escola de enfermagem da USP, Especialista em Estomaterapia e Oncologia, especialista em gestão da qualidade e segurança do paciente, fellowship de prática baseada em evidências pelo Instituto Joanna Briggs, enfermeira estomaterapeuta e coordenadora do comitê de integridade da pele do Hospital Sirio Libanês