Estomaterapeuta no Cuidado à Criança com TEA

Estomaterapeuta no cuidado à criança com TEA

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) exige respostas clínicas que considerem a singularidade do desenvolvimento infantil e as condições do núcleo familiar, incluindo fatores sociais, econômicos e estruturais. Nos Estados Unidos, estima-se que 1 em cada 31 crianças de 8 anos esteja no espectro, com maior prevalência entre meninos e famílias de baixa renda [1]. Esses números não indicam, por si só, melhorias na identificação precoce, podendo refletir desigualdades no acesso ao diagnóstico e às intervenções especializadas.

Sinais clínicos do TEA podem ser observados a partir dos 12 meses de idade, com possibilidade de diagnóstico a partir dos 18 meses, desde que conduzido por equipe multiprofissional qualificada [2]. No entanto, na prática, a identificação ocorre de forma tardia. Esse atraso diagnóstico está associado a protocolos desatualizados, à escuta clínica fragmentada e à formação médica generalista, que negligência os marcos do neurodesenvolvimento, dificultando o início oportuno de intervenções efetivas [3].

O diagnóstico do TEA é clínico, mas instrumentos como o ADI-R e o ADOS-2 aumentam a precisão avaliativa. Ainda assim, a análise funcional e o contexto de vida da criança permanecem insubstituíveis. Sinais como recusa ao uso do vaso sanitário, constipação funcional, dermatites perineais e uso prolongado de fraldas após os cinco anos seguem subvalorizados na prática clínica. Nessa interface, a estomaterapeuta possui competência técnica para avaliar e intervir nas disfunções eliminatórias, promovendo autonomia funcional baseada em metas alcançáveis e concretas. Sua atuação inclui a análise de variáveis como sensibilidades táteis, barreiras sensoriais, padrões de higiene e restrições impostas pelo ambiente domiciliar. Embora não substitua outras especialidades, sua presença contribui para suprir lacunas deixadas por uma prática fragmentada e focada unicamente em protocolos padronizados.

A centralidade da intervenção não deve ser a normalização do comportamento, mas a promoção da funcionalidade possível, do conforto e da autonomia concreta. Abordagens como a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), integração sensorial e musicoterapia apresentam respaldo científico, sobretudo quando vinculadas a metas terapêuticas bem definidas e contextualizadas. Evidências indicam que o uso terapêutico da música pode impactar positivamente funções motoras, sociais e comunicativas [4].

As limitações observadas na aplicação da ABA geralmente decorrem do uso inadequado por parte dos profissionais, e não do método em si. Instrumentos como o VB-MAPP, validados em correlação com escalas adaptativas [5], são negligenciados na prática clínica. Avaliações estruturadas como o Portage e o checklist de Denser seguem subutilizadas. Em perfis com déficits sociais mais acentuados, abordagens como Crafting Connections e Social Skills Solutions mostram-se indicadas. Para alterações severas de linguagem, o protocolo PIC tende a ser mais apropriado. Em casos de comprometimento funcional amplo, a priorização de habilidades de vida diária é mais coerente com diretrizes baseadas em funcionalidade do que a adoção de planos terapêuticos genéricos e descontextualizados.

Apesar da ampla disponibilidade desses recursos, observa-se a aplicação de protocolos de forma homogênea, com metas terapêuticas imprecisas e definição de frequência baseada em critérios arbitrários, sem fundamentação funcional. A carga horária raramente é determinada com base em avaliações individualizadas. Relatos subjetivos, como “a criança teve um bom dia” ou “não colaborou na sessão”, substituem indicadores clínicos mensuráveis. Na ausência de dados objetivos, decisões clínicas passam a se apoiar na percepção individual, o que compromete a validade das intervenções [6].

Uma proposta ética de cuidado exige uma sequência técnica estruturada: avaliação criteriosa, planejamento individualizado, execução coerente e monitoramento contínuo com base em dados objetivos. Pactuar o plano terapêutico com a família, estabelecer metas mensuráveis e registrar avanços de forma sistemática são etapas fundamentais para garantir transparência, efetividade e possibilidade de reorientação em caso de estagnações [6].

Desenvolvimento não deve ser presumido. Deve ser mensurado, documentado e reavaliado periodicamente. Trabalhar com ABA ou com qualquer abordagem baseada em evidência, exige domínio técnico e compromisso com a funcionalidade concreta da criança, em vez de narrativas genéricas de progresso.

Muitas famílias são levadas a acreditar que estão acessando práticas inclusivas, quando, na realidade, recebem intervenções padronizadas, sem planejamento individualizado, sem análise sistemática de dados e sem mecanismos claros de responsabilização profissional. Tais práticas comprometem a efetividade do cuidado e não se sustentam como modelos de inclusão genuína.

Referências bibliográficas

1. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Prevalence of Autism Spectrum Disorder Among Children Aged 8 Years—Autism and Developmental Disabilities Monitoring Network, 11 Sites, United States, 2020. MMWR Surveill Summ. 2023;72(2):1–14.
2. Okoye C, Obialo-Ibeawuchi CM, Obajeun OA, et al. Early diagnosis of autism spectrum disorder: a review and analysis of the risks and benefits. Cureus. 2023;15(8):e43226. doi:10.7759/cureus.43226
3. Rodrigues LAC, Pereira CRR, Silva YRP, et al. Percepções de familiares sobre o processo de diagnóstico de crianças com TEA na atenção primária. Rev Bras Saúde Matern Infant. 2023;23(4):1003–1012. doi:10.1590/1806-93042023000400005
4. LaGasse B, Yoo GE, Hardy MW. Rhythm and music for promoting sensorimotor organization in autism: broader implications for outcomes. Front Integr Neurosci. 2024;18:1403876. doi:10.3389/fnint.2024.1403876
5. Lotfizadeh AD, Gard B, Rico C, et al. Convergent and Discriminant Validity of the Verbal Behavior Milestones Assessment and Placement Program (VB–MAPP) and the Vineland Adaptive Behavior Scales (VABS). J Autism Dev Disord. 2025;55:803–811. doi:10.1007/s10803-024-06241-5
6. Ferreira T, Silva N, Sousa D, et al. Participação familiar e monitoramento do progresso em intervenções para o TEA: uma abordagem baseada em dados. Rev Bras Terap Comport Cogn. 2023;25(1):45–58. doi:10.5935/rbtcc.v25i1.1257

Ronesca Sech de Santana

Ronesca Sech de Santana

Enfermeira especialista em Estomaterapia e Oncologia, com trajetória consolidada na prática clínica, docência e avaliação científica. Mestranda em Tecnologias em Saúde pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, desenvolve pesquisa voltada à aplicação de termografia infravermelha na avaliação de feridas crônicas em pacientes com e sem diabetes mellitus. Integra, desde 2021, a equipe de avaliação científica das Jornadas de Estomaterapia, com atuação recorrente como avaliadora, moderadora e membro de comissões organizadoras da SOBEST. Sua experiência combina rigor técnico, escuta qualificada e capacidade de articulação entre ciência, ensino e prática assistencial. Está apta a contribuir em iniciativas voltadas à educação continuada, organização de eventos científicos, curadoria de conteúdo técnico e desenvolvimento de projetos institucionais voltados ao cuidado em estomaterapia.

pt_BRPortuguese

Armazenamos dados temporariamente para melhorar a sua experiência de navegação. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento. Saiba mais acessando nossa Política de Privacidade.