Inteligência Artificial e Estomaterapia: Entre padrões e pessoas
A Inteligência Artificial (IA) chegou à prática clínica antes mesmo de muitas instituições discutirem sua regulamentação. Hoje, ela está presente em aplicativos, sistemas de apoio à decisão, ferramentas de análise de imagens e plataformas de geração de texto, utilizados diariamente por profissionais de saúde.
Na estomaterapia, seu potencial é evidente. Sistemas de visão computacional já mensuram feridas, comparam a evolução de imagens, classificam tipos de tecido e identificam padrões clínicos com precisão crescente. Modelos generativos auxiliam na elaboração de relatórios, na produção de materiais educativos e na organização de informações clínicas, reduzindo tarefas repetitivas e ampliando a capacidade analítica do profissional.
Contudo, o principal debate não é tecnológico, mas humano. A IA reconhece padrões. O enfermeiro estomaterapeuta reconhece pessoas.
Essa diferença tem profundas implicações para a tomada de decisão clínica. Algoritmos identificam características presentes em bancos de dados e imagens previamente analisadas, mas não captam sofrimento, contexto familiar, preferências individuais, aspectos culturais ou sinais clínicos sutis que frequentemente definem a conduta assistencial.
Na prática, existe o risco real de viés de automação: a tendência de aceitar acriticamente recomendações geradas por máquina, especialmente quando são apresentadas de forma convincente. Na estomaterapia, em que detalhes clínicos podem modificar completamente um plano de cuidados, essa confiança excessiva representa um perigo concreto.
Outro aspecto fundamental diz respeito à privacidade e à proteção de dados. Imagens de feridas e estomias constituem dados sensíveis e exigem consentimento explícito, armazenamento seguro e conformidade rigorosa com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), especialmente quando utilizadas em ferramentas de IA na nuvem ou em aplicativos de mensagens.
A incorporação responsável da IA exige que o enfermeiro estomaterapeuta desenvolva novas competências: compreender os limites dos algoritmos, validar criticamente suas recomendações e manter a responsabilidade final sobre as decisões clínicas.
A tecnologia pode e deve apoiar o raciocínio clínico, jamais substituí-lo.
O futuro da Estomaterapia não será definido pela capacidade das máquinas de processar informações, mas pela habilidade dos profissionais de utilizar essas ferramentas sem abrir mão do julgamento clínico, da responsabilidade ética e da centralidade da pessoa assistida.
A inteligência artificial veio para ficar. O cuidado humanizado, também.
É exatamente no equilíbrio entre inovação tecnológica e excelência profissional que reside uma das maiores oportunidades para o avanço da Estomaterapia.

Edson Maruyama Diniz é enfermeiro estomaterapeuta da Prefeitura de São Paulo, mestre em Telessaúde e Saúde Digital, professor e palestrante. Desenvolve atividades assistenciais, educacionais e de pesquisa nas áreas de estomaterapia, saúde digital e inteligência artificial aplicada à prática clínica.
