O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março e oficializado pela Organização das Nações Unidas em 1975, constitui um marco histórico na consolidação dos direitos humanos das mulheres e na promoção da equidade de gênero em escala global. No âmbito da saúde, essa data suscita análise crítica das iniquidades estruturais que incidem sobre mulheres e meninas ao longo da vida, determinadas por fatores biológicos, socioeconômicos, culturais, ambientais e políticos. Em 2026, a campanha internacional da Organização Mundial da Saúde, intitulada “Rights. Justice. Action. For ALL Women and Girls”, enfatiza que o direito das mulheres ao mais elevado padrão de saúde constitui prerrogativa fundamental e inalienável, o que demanda ações intersetoriais voltadas à eliminação das desigualdades de gênero. O documento destaca que disparidades persistentes no acesso a serviços essenciais, na proteção social e nas condições de trabalho impactam negativamente os indicadores epidemiológicos, ampliando vulnerabilidades e comprometendo a integralidade da atenção à saúde.
No contexto da estomaterapia, especialidade da enfermagem voltada ao cuidado de pessoas com estomias, feridas e incontinências, a atuação feminina é historicamente expressiva e cientificamente consolidada. Trata-se de uma área que requer competências clínicas especializadas, raciocínio clínico apurado, capacidade de
avaliação sistematizada e de tomada de decisão fundamentada em evidências científicas. Estudos contemporâneos evidenciam que a intervenção do estomaterapeuta exerce impacto significativo na prevenção de complicações, na reabilitação funcional e na melhoria dos desfechos relacionados à qualidade de vida.
Ademais, tais profissionais desempenham papel fundamental na educação em saúde, no suporte psicossocial e na promoção da autonomia e do autocuidado, alinhando-se às diretrizes internacionais que preconizam justiça social e equidade no acesso à assistência.
A relevância da mulher na estomaterapia remete ao pioneirismo de Norma Gill, considerada uma das precursoras mundiais da especialidade. Com uma estomia desde a juventude, Norma Gill transformou sua experiência pessoal em uma trajetória profissional dedicada à reabilitação e ao cuidado especializado, contribuindo para a
sistematização de práticas assistenciais e para a consolidação da estomaterapia como campo de conhecimento. Seu trabalho foi fundamental para a criação de programas de capacitação de enfermeiras estomaterapeutas, estabelecendo as bases para uma prática estruturada, centrada no paciente e orientada por evidências.
No cenário brasileiro, destaca-se a liderança acadêmica da Profa. Dra. Vera Lúcia de Gouveia Santos, responsável pela criação do primeiro curso de Especialização em Estomaterapia na Universidade de São Paulo e pela consolidação científica da área no país. É imprescindível reconhecer a atuação coletiva de inúmeras outras mulheres, docentes, pesquisadoras, gestoras, lideranças associativas e enfermeiras assistenciais, que, por meio da produção científica, da organização de associações profissionais e da incidência em políticas públicas, fortalecem a especialidade e lutam em defesa do cuidado integral, para garantir os direitos e o avanço no acesso à saúde das pessoas com feridas, estomias e incontinência. Assim, relacionar o Dia Internacional da Mulher às contribuições femininas na estomaterapia implica reconhecer a dimensão histórica, científica e social dessa atuação, reafirmando o papel da mulher estomaterapeuta como agente de transformação, promotora de equidade em saúde e protagonista na efetivação dos princípios de direitos, justiça e ação preconizados em nível global.
Referências bibliográficas
- World Health Organization Regional Office for Europe. International Women’s Day 2026: Rights. Justice. Action. For ALL Women and Girls [Internet]. Copenhagen: WHO Regional Office for Europe; 2026 [cited 2026 Feb 27]. Available from: https://www.who.int/europe/news-room/events/item/2026/03/05/default-
calendar/international-women-s-day-2026–rights-justice-action-for-all-women-and-girls Palmer SJ. Stoma care: a review of current practice. Br J Community Nurs.2025;30(Suppl 4a):S8–S10.doi:10.12968/bjcn.2025.0053. - Guedes CM, et al. The importance of the stomal therapy nurse for the care of children with intestinal stoma: the maternal perspective. Estima (Online).2024;22:e1492.
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Profa. Dra. Juliany Lino Gomes Silvani Neiva
Estomaterapeuta TiSobest e Assessora do Departamento de Desenvolvimento Profissional SOBEST. Professora Doutora da Área de Fundamentos e Coordenadora Associada na FEnf-Unicamp. Líder do Grupo de Estudo, Pesquisa e Extensão em Tecnologias para o Ensino e o Cuidado em Saúde (GEPETECS). Desenvolve pesquisas na área de Tecnologias e Estratégias de Ensino, Educação em Enfermagem e Estomaterapia.
