O mês de janeiro se veste de roxo para alertar a sociedade sobre uma das doenças mais antigas da humanidade, mas que ainda representa um importante desafio de saúde pública no Brasil: a hanseníase. A campanha Janeiro Roxo tem como objetivo ampliar a informação, estimular o diagnóstico precoce e combater o estigma que ainda cerca a doença.
Um dos principais desafios no enfrentamento da hanseníase é o diagnóstico tardio, que contribui para a manutenção da cadeia de transmissão e para o surgimento de incapacidades físicas evitáveis. Muitas pessoas percorrem um longo caminho nos serviços de saúde, sendo avaliadas por diferentes profissionais, sem que a hanseníase seja considerada como hipótese diagnóstica. A diversidade das manifestações clínicas, a semelhança com outras doenças dermatológicas e neurológicas, aliadas à baixa suspeição clínica e à necessidade de capacitação contínua, fazem com que a doença seja negligenciada, atrasando o início do tratamento.
No Brasil, os dados epidemiológicos mais recentes evidenciam a persistência da hanseníase como problema relevante de saúde pública. Em 2023, o país registrou 22.773 casos novos, ocupando a segunda posição mundial em número absoluto de notificações. Esses dados refletem a transmissão ativa da doença em determinadas regiões e reforçam a necessidade de intensificar as ações de vigilância, prevenção e educação em saúde.
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pela bactéria Mycobacterium leprae, que acomete principalmente os nervos periféricos, além da pele, mucosas e olhos. Por esse motivo, trata-se inicialmente de uma doença neurológica, manifestando-se por dormência, formigamento, perda de sensibilidade e dores ao longo dos nervos, podendo evoluir com lesões de pele que, muitas vezes, passam despercebidas.
A transmissão ocorre por meio de gotículas respiratórias, eliminadas quando uma pessoa infectada e ainda sem tratamento tosse, espirra ou fala em contato próximo e prolongado com outra pessoa suscetível. A hanseníase não é transmitida por abraço, aperto de mãos, compartilhamento de talheres, roupas ou objetos de uso pessoal.
A boa notícia é que a hanseníase tem tratamento eficaz e cura, oferecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O tratamento é realizado por meio da Poliquimioterapia Única (PQT-U), que associa antibióticos como
rifampicina, dapsona e clofazimina, por um período de 6 a 12 meses, conforme a forma clínica da doença. Quando seguido corretamente, o tratamento interrompe a transmissão, promove a cura e reduz o risco de complicações. Ainda assim, o diagnóstico tardio permanece como um fator determinante para o desenvolvimento de deformidades, incapacidades físicas e impacto negativo na qualidade de vida.
O cuidado à pessoa com hanseníase deve ser multiprofissional e pautado na integralidade da assistência. Nesse contexto, destaca-se a atuação do estomaterapeuta, profissional fundamental na prevenção e no manejo das complicações cutâneas e neurológicas associadas à doença. Úlceras plantares, lesões traumáticas recorrentes e feridas de difícil cicatrização exigem avaliação especializada, escolha adequada de coberturas, alívio de pressão e acompanhamento sistemático, áreas nas quais o estomaterapeuta possui expertise consolidada.
Além do cuidado direto com as lesões, o estomaterapeuta desempenha papel essencial na educação em saúde, orientando pessoas acometidas pela hanseníase e seus familiares quanto ao autocuidado, à inspeção diária da pele, à proteção de áreas com perda de sensibilidade e ao uso adequado de calçados e dispositivos de proteção. Essas ações são decisivas para a prevenção de incapacidades, redução de recidivas de feridas e promoção da autonomia e segurança do paciente.
O Janeiro Roxo reforça não apenas a importância do diagnóstico precoce e do tratamento oportuno da hanseníase, mas também a necessidade de uma assistência qualificada, humanizada e contínua. Ao integrar conhecimento técnico-científico, cuidado especializado e ações educativas, o estomaterapeuta contribui de forma decisiva para a reabilitação, a prevenção de sequelas e a melhoria da qualidade de vida das pessoas acometidas pela doença.
Falar sobre hanseníase deve ir além do mês de janeiro. “Conhecer e cuidar de janeiro a janeiro” é essencial para promover informação, diagnóstico precoce, tratamento adequado e, principalmente, para reduzir o estigma social que ainda acompanha essa condição.
Referências bibliográficas
Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da Hanseníase. Brasília: Ministério da Saúde, 2022. 152 p.
Brasil. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico de Hanseníase 2025. Brasília: Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, janeiro de 2025.
Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). Hanseníase: diagnóstico precoce e acolhimento transformam vidas no Brasil. Publicado em fevereiro de 2025.
Barreto, J. A. Leprosy in the 21st century: a comprehensive review of immunological mechanisms, diagnosis, and treatment. Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, dezembro de 2025.

Uiara Aline Oliveria Kaizer
Enfermeira Estomaterapeuta titulada pela Sobest, Doutora e Mestre em Ciências da Saúde pela Unicamp. Enfermeira responsável pelo Ambulatório de Feridas e Pé Diabético da Prefeitura de Sorocaba. Tutora da Residência em Saúde da Família e Comunidade da Prefeitura