Em tempos de discussão sobre a prevenção do tabagismo, torna-se necessário compreender que o cenário do consumo de nicotina mudou significativamente. O conceito tradicional associado apenas ao cigarro convencional já não reflete a realidade atual, marcada pela ampla variedade de produtos e dispositivos utilizados para fumar, especialmente entre os jovens. Diante dessa transformação, o termo “produtos fumígenos e dispositivos para fumar” passou a abranger diferentes formas de consumo de nicotina e de substâncias inaladas.
Entre os principais produtos atualmente utilizados estão os cigarros convencionais, os cigarros eletrônicos, os cigarros de palha, o narguilé e demais dispositivos eletrônicos para fumar. Apesar de muitos serem comercializados com a falsa ideia de menor risco à saúde, evidências científicas demonstram que todos possuem potencial tóxico capaz de provocar alterações cardiovasculares, respiratórias, inflamatórias e até oncológicas.
O aumento progressivo do consumo desses produtos entre adolescentes e adultos jovens tem gerado preocupação mundial. A popularização dos cigarros eletrônicos, impulsionada por sabores atrativos, pelo marketing digital e pela percepção equivocada de segurança, favoreceu o início cada vez mais precoce do contato com a nicotina. Estudos nacionais e internacionais demonstram que jovens usuários apresentam maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de dependência química, além de exposição contínua a substâncias carcinogênicas e inflamatórias.
Além dos impactos sistêmicos, o tabagismo interfere diretamente no processo de cicatrização de feridas. A nicotina promove vasoconstrição e reduz a oxigenação tecidual, enquanto o monóxido de carbono compromete o transporte de oxigênio no sangue. Como consequência, há prejuízo na formação do tecido de granulação, redução da síntese de colágeno e aumento do risco de infecção, deiscência e necrose tecidual.
Os dispositivos eletrônicos para fumar também estão associados a danos significativos à saúde. Mesmo sem combustão tradicional, esses dispositivos liberam metais pesados, aldeídos tóxicos e partículas ultrafinas capazes de desencadear lesão endotelial, inflamação sistêmica e alterações celulares semelhantes às observadas no tabagismo convencional.
O tabagismo permanece um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de neoplasias malignas, especialmente cânceres de pulmão, cavidade oral, laringe, faringe, esôfago e estômago. Muitos desses tumores exigem tratamentos cirúrgicos complexos e podem resultar na necessidade de estomias temporárias ou permanentes.
Entre as estomias mais frequentemente associadas ao tabagismo, destacam-se a traqueostomia e a laringostomia, comuns em pacientes com câncer avançado de cabeça e pescoço. Nos casos de cânceres gastrointestinais, principalmente de esôfago e de estômago, pode haver necessidade de gastrostomia ou jejunostomia para a manutenção da nutrição enteral durante o tratamento oncológico.
Dessa forma, o uso contínuo de produtos fumígenos e dispositivos eletrônicos para fumar representa um importante fator de risco tanto para o desenvolvimento de doenças graves quanto para complicações no processo cicatricial. Nesse contexto, a atuação da Enfermagem geral e da Estomaterapia torna-se fundamental na prevenção de complicações, na educação em saúde e no incentivo à cessação do tabagismo, contribuindo diretamente para a melhora do prognóstico e da qualidade de vida dos pacientes.

Caroline Padovani de Souza
Especialista em Estomaterapia pelo Centro Universitário São Camilo.
Especialista em Enfermagem Intensiva pela Universidade Estácio de Sá.
Especialista em Saúde Pública pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Estomaterapeuta no Polo de Curativos do Município de São Paulo – 2021 à 2023.
Laserterapeuta: atuação no tratamento e na prevenção de lesões.
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