{"id":13774,"date":"2025-06-18T10:00:00","date_gmt":"2025-06-18T13:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/sobest.com.br\/?p=13774"},"modified":"2025-06-20T12:16:39","modified_gmt":"2025-06-20T15:16:39","slug":"o-que-aprendi-como-mae-de-crianca-com-autismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sobest.com.br\/en\/o-que-aprendi-como-mae-de-crianca-com-autismo\/","title":{"rendered":"Quando o tempo virou urg\u00eancia: O que aprendi sendo m\u00e3e de uma crian\u00e7a com autismo em um sistema que n\u00e3o escuta"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o m\u00e9dico disse \u201cautismo\u201d, o tempo virou urg\u00eancia. De um lado, as d\u00favidas que tr\u00eas pediatras insistiram em ignorar. Do outro, um diagn\u00f3stico seco, sem explica\u00e7\u00f5es, apenas uma prescri\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica: quarenta horas semanais de terapias. Como encaixar isso na realidade? Como pagar? Com quem contar? Aquilo n\u00e3o esclareceu nada, trouxe o peso de saber que o caminho seria enfrentado com pouca escuta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Meu filho In\u00e1cio nasceu em 2013. Era meu segundo filho, planejado, desejado, recebido com tudo no lugar: casa organizada, rotina ajustada, vida est\u00e1vel. Nos primeiros meses, tudo parecia dentro do esperado, consultas em dia, ganho de peso, sono regular. Mas os sinais chegaram cedo. E n\u00e3o era compara\u00e7\u00e3o com o irm\u00e3o. Ele n\u00e3o sustentava a cabe\u00e7a, n\u00e3o respondia ao nome, evitava o olhar. Chorava muito \u00e0 noite, com uma agita\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o sabia nomear. Eu percebia que algo n\u00e3o estava certo. Mas, consulta ap\u00f3s consulta, a resposta era sempre a mesma: <em>\u201ccada crian\u00e7a tem seu tempo.\u201d<\/em> Aos poucos, deixei de confiar no que via. <a href=\"https:\/\/sobest.com.br\/en\/janeiro-branco-importancia-da-saude-mental\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/sobest.com.br\/janeiro-branco-importancia-da-saude-mental\/\">Comecei a achar que o erro era meu.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando percebi que a escuta m\u00e9dica n\u00e3o mudaria, busquei alternativas. Fiz um relato em um centro de refer\u00eancia nacional e, em quinze dias, fomos chamados. L\u00e1 encontrei a primeira escuta t\u00e9cnica, mas com uma condi\u00e7\u00e3o: exclusividade. Aceitei. Parecia a \u00fanica via poss\u00edvel de cuidado articulado. Mas mesmo ali, as lacunas eram profundas. In\u00e1cio passou a ser atendido por uma equipe multiprofissional: m\u00e9dico do desenvolvimento, psic\u00f3loga, fonoaudi\u00f3loga, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta. Mas, mesmo com tantos nomes na agenda, um aspecto seguia ausente: o olhar para a vida concreta. Sono, alimenta\u00e7\u00e3o, dor, desconfortos nada disso cabia nas discuss\u00f5es. A fragmenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o era descaso. Era o retrato de um sistema que n\u00e3o reconhece o cotidiano como parte do tratamento do autismo. O que n\u00e3o est\u00e1 no protocolo, n\u00e3o entra na conversa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O diagn\u00f3stico de autismo mudou tudo principalmente dentro de casa. O pai de In\u00e1cio recusou a nova realidade, agarrando-se \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o anterior. O cuidado passou a ser assumido por mim e por minha m\u00e3e. Reorganizamos a rotina. Deixei um dos empregos, reduzi carga hor\u00e1ria, acompanhei cada sess\u00e3o, cada tentativa de avan\u00e7o. Minha m\u00e3e cobria o que eu n\u00e3o dava conta: hor\u00e1rios, refei\u00e7\u00f5es, momentos de exaust\u00e3o. Entre deslocamentos, fichas, relat\u00f3rios e metas, uma constata\u00e7\u00e3o se imp\u00f4s: mais do que ajuda, era preciso uma rede e ela n\u00e3o existia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escola tamb\u00e9m estava presente nessa trajet\u00f3ria. Mas, como tantos outros espa\u00e7os, n\u00e3o estava preparada. In\u00e1cio chorava todos os dias para ir e eu chorava de volta. Os especialistas diziam que a ida era essencial: para socializar, desenvolver a linguagem. Mas acontecia o oposto. Ele voltava mais agitado, mais sens\u00edvel, mais exausto. N\u00e3o suportava o barulho, os risos, os choros, os empurr\u00f5es, os abra\u00e7os espont\u00e2neos, aquilo que para outras crian\u00e7as \u00e9 rotina, para ele era sobrecarga. A escola, que deveria ser acolhimento, virou mais um ambiente de tens\u00e3o. Em vez de ponte, receb\u00edamos bilhetes, advert\u00eancias e sil\u00eancios. E, mais uma vez, <a href=\"https:\/\/sobest.com.br\/en\/saude-mental-da-mae-trabalhadora\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/sobest.com.br\/saude-mental-da-mae-trabalhadora\/\">a culpa ca\u00eda sobre a m\u00e3e<\/a> por aquilo que o sistema n\u00e3o sabia (ou n\u00e3o queria) sustentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levei In\u00e1cio \u00e0 nata\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, hipismo, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia. Mas o padr\u00e3o se repetia: profissionais que n\u00e3o se comunicavam, foco em procedimentos, descuido com o essencial. Numa das cl\u00ednicas, ele recebeu um plano alimentar padr\u00e3o, ignorando sua constipa\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica. A recomenda\u00e7\u00e3o: mudar a textura dos alimentos. Como se fosse s\u00f3 uma quest\u00e3o sensorial. Nenhuma escuta. Nenhuma investiga\u00e7\u00e3o. A resposta era t\u00e9cnica. O cuidado, superficial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">P\u00fablico ou privado, o cen\u00e1rio era o mesmo: o cuidado era parcelado. As equipes se diziam multiprofissionais, mas agiam sozinhas. O neurologista prescrevia sem escutar. O terapeuta aplicava m\u00e9todos sem considerar a realidade da casa. A fono seguia protocolos sem investigar audi\u00e7\u00e3o funcional. E quem conectava tudo isso era eu a m\u00e3e. Quando os resultados n\u00e3o apareciam, surgia a culpa: <em>\u201cn\u00e3o estimulou\u201d, \u201cn\u00e3o seguiu\u201d, \u201cdemorou demais para buscar ajuda.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E no meio de tudo isso, a medica\u00e7\u00e3o surgiu como regra. Risperidona, sertralina, melatonina, nomes que entraram na rotina com uma facilidade assustadora. E me pergunto, at\u00e9 hoje: ser\u00e1 mesmo que toda crian\u00e7a com autismo precisa ser medicada antes de revisarmos o ambiente em que ela vive? Antes de olhar para os ru\u00eddos sensoriais, os h\u00e1bitos familiares, o v\u00ednculo, o sono, a alimenta\u00e7\u00e3o? Ou estamos medicando para silenciar o que incomoda mais os adultos do que as crian\u00e7as?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inf\u00e2ncia tem um tempo pr\u00f3prio e ele n\u00e3o espera. Cada ano sem cuidado articulado \u00e9 uma janela que se fecha. Quando sinais s\u00e3o minimizados e condutas padronizadas s\u00e3o aplicadas sem contexto, n\u00e3o se trata de neutralidade. Trata-se de neglig\u00eancia. E as perdas n\u00e3o s\u00e3o apenas no desenvolvimento, s\u00e3o emocionais e sociais e recaem com for\u00e7a sobre quem mais deveria ser apoiado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fam\u00edlias adoecem tentando suprir o que o sistema fragmentado n\u00e3o oferece. Conhe\u00e7o pais que venderam casa, romperam v\u00ednculos, esgotaram finan\u00e7as tudo em busca de um cuidado para o autismo, que deveria ser b\u00e1sico. Contratam equipes com esperan\u00e7a, recebem promessas, acumulam frustra\u00e7\u00f5es. Falta orienta\u00e7\u00e3o, falta responsabilidade compartilhada. O cuidado s\u00f3 acontece quando \u00e9 inteiro. E ele s\u00f3 \u00e9 inteiro quando a crian\u00e7a \u00e9 vista como um todo, n\u00e3o como uma soma de especialistas.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized is-style-rounded\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"500\" src=\"https:\/\/sobest.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ronesca-sech-de-santana.jpg\" alt=\"Ronesca Sech de Santana\" class=\"wp-image-11246\" style=\"object-fit:cover;width:150px;height:150px\" srcset=\"https:\/\/sobest.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ronesca-sech-de-santana.jpg 500w, https:\/\/sobest.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ronesca-sech-de-santana-300x300.jpg 300w, https:\/\/sobest.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ronesca-sech-de-santana-150x150.jpg 150w, https:\/\/sobest.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/ronesca-sech-de-santana-12x12.jpg 12w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ronesca Sech de Santana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>M\u00e3e do In\u00e1cio<br><\/strong>Enfermeira especialista em Estomaterapia e Oncologia, com trajet\u00f3ria consolidada na pr\u00e1tica cl\u00ednica, doc\u00eancia e avalia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Mestranda em Tecnologias em Sa\u00fade pela <a href=\"https:\/\/www.bahiana.edu.br\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.bahiana.edu.br\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Escola Bahiana de Medicina e Sa\u00fade P\u00fablica<\/a>, desenvolve pesquisa voltada \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de termografia infravermelha na avalia\u00e7\u00e3o de feridas cr\u00f4nicas em pacientes com e sem diabetes mellitus. Integra, desde 2021, a equipe de avalia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica das Jornadas de Estomaterapia, com atua\u00e7\u00e3o recorrente como avaliadora, moderadora e membro de comiss\u00f5es organizadoras da SOBEST. Sua experi\u00eancia combina rigor t\u00e9cnico, escuta qualificada e capacidade de articula\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia, ensino e pr\u00e1tica assistencial. Est\u00e1 apta a contribuir em iniciativas voltadas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o continuada, organiza\u00e7\u00e3o de eventos cient\u00edficos, curadoria de conte\u00fado t\u00e9cnico e desenvolvimento de projetos institucionais voltados ao cuidado em estomaterapia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando o m\u00e9dico disse \u201cautismo\u201d, o tempo virou urg\u00eancia. De um lado, as d\u00favidas que tr\u00eas pediatras insistiram em ignorar. Do outro, um diagn\u00f3stico seco, sem explica\u00e7\u00f5es, apenas uma prescri\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica: quarenta horas semanais de terapias. Como encaixar isso na realidade? Como pagar? Com quem contar? 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