Sobest e Sobende divulgam nota conjunta por reportagem do Fantástico com informações incorretas sobre Lesão por Pressão

                             

 

 

 

 

NOTA DE REPÚDIO À MATÉRIA DO FANTÁSTICO – O SHOW DA VIDA

DE 24 DE OUTUBRO DE 2020

 

 

Nós, enfermeiros especialistas nas áreas de Estomaterapia e Dermatologia vinculados à Associação Brasileira de Estomaterapia: Estomias, Feridas e Incontinências (SOBEST), Associação Brasileira de Dermatologia (SOBENDE) e ao Grupo de Pesquisa em Estomaterapia EEUSP (GPET/PROESA) expressamos nossa indignação diante de uma série de  informações totalmente  equivocadas veiculadas na última edição do Programa “ Fantástico – O Show da Vida”, na matéria intitulada  “Processo de recuperação de pessoas que tiveram formas graves de COVID-19”, particularmente nos aspectos relacionados à nossa área de cuidado especializado, qual seja a atenção (prevenção e tratamento) de pessoas com alterações da integridade da pele (feridas).

Um tema com tal relevância, particularmente neste momento de Pandemia  em que a população necessita receber informação de qualidade e pautada por evidências científicas,  deveria ter sido preparado pela equipe responsável com base em  consulta a fontes de informações  embasadas nos preceitos éticos do jornalismo,  buscando  a verdade, a veracidade e a precisão dos conteúdos,  por meio de consulta a especialistas na área, o que certamente não ocorreu  nessa reportagem, a qual não contou com a participação  da Enfermagem, cujos profissionais detém,  não apenas o conhecimento técnico-cientifico sobre o tema, como também, respondem por mais de 70% das ações de saúde prestadas à população.

Ressaltamos que as informações com relação aos eventos adversos relacionados às lesões de pele nas pessoas com COVID-19 dessa reportagem foram equivocadas e inconsistentes, estando em total descompasso com o conhecimento e as boas práticas recomendadas por organismos nacionais e internacionais em relação a prevenção e manejo das lesões por pressão.

O termo “escara” não é correto para o significado a ele atribuído durante a reportagem. De fato, já há muitos anos, foi substituído mundialmente (instituições internacionais de referência na temática*) pela terminologia “lesão por pressão”, exatamente pela imprecisão do termo anterior (escara), infelizmente utilizado durante a reportagem. A escara representa o tecido necrótico que pode estar presente em uma lesão por pressão em estágios mais avançados.

A lesão por pressão é causada pela pressão combinada com outros fatores de risco, como cisalhamento e umidade, favorecendo danos na pele pela falta de irrigação sanguínea local e deformação na sua estrutura. Essas lesões podem ocorrer em locais de pressão sobre proeminências ósseas ou pela pressão de dispositivos médicos na pele ou mucosas.

Protocolos de prevenção das lesões por pressão são amplamente utilizados em instituições de saúde com a finalidade de eliminar, reduzir ou minimizar estes pontos de pressão.

Esses protocolos abrangem medidas de higienização e hidratação da pele, mobilização com horários pré-estabelecidos, uso de tecnologias como colchões para redistribuição de pressão e superfícies de suporte para auxiliar no posicionamento e reposicionamento dos pacientes no leito. Condições das roupas de cama e uso de produtos absorventes (como fraldas) também são medidas observadas para manter a pele seca e minimizar o risco de lesões por pressão.

Dispositivos de uso médico-hospitalar que ficam em contato com a pele ou mucosa, utilizados especialmente para o tratamento de pessoas gravemente enfermas, como cateteres vasculares ou vesicais, tubos para respiração invasiva, entre outros, também podem representar risco para lesões por pressão por fixação ou posicionamento incorreto.

Pacientes com a forma grave do COVID-19 apresentam insuficiência respiratória e alterações vasculares que comprometem os níveis de oxigenação sanguínea; podem sofrer um processo de desnutrição decorrente da hospitalização e gravidade da doença, além de uma série de medidas invasivas e medicamentosas necessárias para o suporte da vida e que podem representar risco aumentado para desenvolver lesões e outros eventos adversos, como infecções. Entretanto, há muitas medidas de prevenção que a enfermagem está apta a utilizar para minimizar esses riscos.

Reforçamos que o uso de protocolos e tecnologias, como produtos de proteção da pele, com base nas evidências científicas e pautados nas estratégias de avaliação de risco dos pacientes, podem prevenir a maioria e/ou minimizar as formas graves das lesões por pressão.

 

            Medidas como “uso de pomadas e algodão”, citadas na matéria, são totalmente contraindicadas e não fazem parte dos protocolos e guias de boas práticas para cuidados deste tipo de lesão.

 

            No dia 19 de novembro comemoramos o “Dia Mundial de Prevenção da Lesão por Pressão” com diversas campanhas institucionais realizadas ao redor do mundo e em especial no Brasil,    com o objetivo de conscientizar as equipes de saúde  e a população sobre a importância  das medidas de prevenção das lesões por pressão, considerado um problema de saúde pública mundial, com elevados custos sociais, psicoemocionais e financeiros para os países.

Anualmente a SOBEST lança e apoia a campanha “MUDE DE LADO E EVITE A PRESSÃO” incentivando a realização de eventos científicos nas instituições hospitalares de assistência à saúde sobre o tema.

Esperamos contribuir para que as informações de saúde referentes à enfermagem, especialmente à enfermagem especializada, sejam veiculadas com informações consistentes e adequadas.

 

Figura: logotipo da Campanha Mude de Lado e evite a pressão

*Instituições internacionais como National Pressure Injury Advisory Panel (NPIAP) nos EUA, a European Pressure Ulcer Advisory Panel (EPUAP) na Europa, e a Pan Pacific Pressure Injury Alliance (PPPIA), na Região Pan Pacífico, preconizam medidas preventivas, baseadas em evidências cientificas, onde a principal delas é a redistribuição da carga mecânica (pressão) por meio da mudança de posição e uso de superfícies de suporte. Atualmente, vários países, incluindo o Brasil, seguem os protocolos baseados nas orientações dessas instituições (NPIAP e EPUAP) e tem colaborado, principalmente por meio da produção científica de enfermeiros especialistas, na construção de novas evidências científicas.

 

Maria Angela Boccara de Paula                                       Dulce Janaína Gomes de Morais

Presidente SOBEST                                                              Presidente SOBENDE 

 

Sônia Regina Pérez Evangelista Dantas                          Diego Bonil de Almeida

Vice-presidente SOBEST                                                     Vice-presidente SOBENDE

 

Vera Lucia Conceição de Gouveia Santos

Professora titular da EEUSP e orientadora do GPET/PROESA

 

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