Sobest divulga nota informativa sobre parecer que estende a fisioterapeutas a habilitação para tratamento de feridas e queimaduras

            Historicamente e no imaginário público o tratamento de pessoas com feridas é de domínio da enfermagem e sempre fez parte de nossas competências. Ao enfermeiro, desde a sua formação, compete a prevenção e o tratamento de feridas e a complexidade e especificidade desse tratamento exigiu o estabelecimento de especializações de enfermagem, tanto à nível nacional quanto internacional.

 

            Atualmente a expertise clínica para o tratamento de uma pessoa com feridas exige avaliação física, diagnóstico, conhecimento da patofisiologia, reconhecimento e avaliação do processo cicatricial e complicações, intervenções pautadas no tratamento padrão-ouro de acordo com a etiologia, documentação e comunicação de habilidades.

 

            Um plano de tratamento de feridas deve ser individualizado e responder às necessidades do cliente. A escolha da terapia tópica representa apenas um dos estágios do processo decisório desse tratamento e as intervenções dependem da complexidade e gravidade da lesão.

 

            O enfermeiro especialista deve determinar os parâmetros da prática clínica e, se necessário, solicitar instervenções de outras disciplinas, tais como nutricionista, fisioterapeuta e médicos especialistas, afim de maximizar a eficiência do uso de recursos e minimizar a duplicações de esforços.  

 

            A prática clínica no tratamento de feridas deve estar fundamentada em evidências, publicadas em guidelines idealizados por associações internacionais de especialistas, em sua grande maioria composta por enfermeiros, tais como a Wound, Ostomy and Continence Nurses Socity (WOCN), World Union of Wound Healing Societies (WUWHS), Canadian Association of Wound Care, Australian Wound Management Association (AWMA), European Wound Management Association (EWMA), National Pressure Ulcer Advisory Panel (NPUAP), European Pressure Ulcer Advisory Panel (EPUAP), entre outras.

            Terapias adjuvantes para o tratamento de feridas, como laser de baixa potência, ultrassom terapêutico, eletroterapia, ondas de choque extracorpóreas, drenagem linfática, bandagem neuromuscular, entre outras, tem sido objeto de estudos no tratamento de alguns tipos de feridas, mas em sua maioria ainda sem evidências científicas comprovadas (https://wounds.cochrane.org/).   

 

            Diversos estudos tem utilizado algumas dessas tecnologias adjuvantes com o objetivo de auxiliar o processo de reparação tecidual, principalmente em feridas complexas. Entretanto, os princípios de limpeza, desbridamento, controle de exsudato e carga microbiana, manuseio das bordas da lesão, adequação da cobertura e intervenção nos fatores causais são a essência da prática e da qualidade do tratamento. Inúmeros instrumentos são utilizados tanto para avaliação de risco e prevenção de feridas, quanto para evolução e documentação do tratamento.

           

            Recursos tecnológicos isoladamente, sem conhecimento e habilidade clínica, podem ser inefetivos ou até mesmo prejudiciais ao processo de reparação tecidual.

            Por essa razão, a Associação Brasileira de Estomaterapia – SOBEST, publicamente se manifesta contra o ACORDÃO número 924 de 11/12/2018, publicado no Diário Oficial da União, onde um Parecer Técnico Científico, por unanimidade, reconhece a habilitação do fisioterapeuta para tratar feridas e queimaduras.

 

            Respeitamos as competências dos fisioterapeutas e somos à favor da multidisciplinaridade, entretanto, deixamos aqui registrado que o tratamento de feridas não se resume ao uso de terapias adjuvantes e que essa é uma visão reducionista que pode ter repercussões adversas à saúde das pessoas.

 

            Num mundo onde a ética discute transdisciplinaridade, não podemos aceitar atitudes corporativistas, pois a Segurança do Paciente e Qualidade da Assistência dependem de saberes compartilhados.

 

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